12.12.07

Da conformação do brasileiro


Sei lá se é herança cultural ou se a gente foi adquirindo esse dom de se conformar com o tempo. O brasileiro tem um senso de "ah, tá bom" que é invejável. Tem uma capacidade sagaz de fingir que não viu e passar o resto do dia pensando no futebol, no carnaval, na mulherada...
Poderia tomar milhões de situações cotidianas como exemplo, mas vou usar uma que conheço bem, que enfrento todos os dias: o transporte público de São Paulo. Meu Deus!
Saio de casa e tomo um ônibus pro Metrô Barra Funda. São 3 pontos, coisa de dez minutos e eu só uso o ônibus porque tem que atravessar a ponte do Limão - não fosse isso, juro, iria a pé... Por estar perto do ponto final, o Jd. dos Francos - Barra Funda - 9784, passa em casa com gente na porta. Nas duas. É difícil entrar tanto quanto é difícil sair. O pessoal se aloja na porta do ônibus. Pouco importa se ele vai ou não descer. Se alojam ali e ali ficam, parasitando e ocupando um espaço que deveria ficar livre, afinal, foi feito pra quem precisa DESCER do ônibus.
No trem a coisa piora. Educação não existe! E se a sua mãe te deu educação, não ouse usá-la numa estação de trem da CPTM: é perder tempo e correr o risco de não entrar e nem sair do vagão. O primeiro trecho é mais tranqüilo - Barra Funda/Presidente Altino, no trem que vai pra Itapevi. Já pra embarcar em Presidente Altino sentido Jurubatuba, pra descer na Vila Olímpia, haja paciência.
O trem já chega lotado. A porta, pra variar, é a parte mais disputada do vagão. Cheio! Braços, pernas, cabeças, bolsas mochilas, empurrões, nêgo gritando, e MUITA GENTE RINDO. Rindo! Como se aquilo tudo fosse engraçado! Como se fosse dever nosso pegar um trem daquele jeito pagando R$2,30! É a filosofia da hiena: come merda e dá risada.
Ontem, na volta, sentido Osasco, o trem estava de um jeito que eu não via há muito tempo. Tinha passado do "lotado" para o "não cabe mais ninguém", mas a porta abria. E, claro, se a porta abre, o povo entra. Empurra, espreme, xinga, bufa, cola a cara no vidro da porta, mas entra. Parece que quanto mais cheio mais divertido.
O brasileiro se conforma. Acostuma-se a pegar o trem daquele jeito e passa a achar graça de tudo aquilo. Acha legal contar para os amigos que enfrenta um trem lotado todo dia e se diverte com as histórias que conta. Acha normal ter qe pagar pra ir espremido, chegar suado e fendendo ao destino. Camisa passada? Esquece! Não chega mesmo, de jeito algum! Sem comentários!
Assim como o que acontece com o trem, acontece com muitas outras coisas. Coisas que pagamos para poder usufruir com dignidade e respeito, mas, mesmo sendo tudo inverso ao que esperávamos, a gente se acostuma, tolera e ri. Ri da nossa situação, da nossa desgraça, da nossa miséria.
A gente comemora dia após dia a nossa capacidade de não cobrar e se dar satisfeito. A gente celebra nossa falta de bom senso, nossa falta de educação, nossa falta de senso de justiça e de convívio em sociedade. Ignoramos o fato que DEVEMOS cobrar de quem nos fornece COBRANDO por um serviço que esse serviço seja bem prestado. A gente esquece e ri.

Observação importante: li no blog da Soninha, que vai sair candidata à prefeita em São Paulo no ano que vem, um monte de elogios ao tal "trem espanhol". Ela contou que foi assistir a F1 em Interlagos e usou o trem que, "além de ar condicionado, tem música clássica". Elogiou a limpeza, o conforto, mas esqueceu que usou o trem num DOMINGO! DOMINGO! De domingo a muvuca que usa o trem está em casa se preparando para encará-lo na segunda-feira!
Deixei comentário, escrevi, mas não obtive resposta. Não sei porquê... talvez porque ela tenha me ignorado ou talvez porque pensou ser nada a ver o que eu estava dizendo. Legal!

A gente se conforma...

2 comentários:

Marco disse...

Primeiro ela vai na TV defender partido que esbanja dinheiro em diagem inútil pra Argentina. Agora ela elogia trem baseado no domingo. Ou todos os outros políticos são muito filhos da puta ou ela é muito ingênua. Ou os dois.
Chama ela pra pegar o francos/barra funda e depois o trem na segunda de manhã! Um soco de realidade deve fazê-la mudar de opinião e entender como as coisas são.

Jean disse...

Acho que a gente se conforma porque é mais fácil. Preferimos nos manter unidos à multidão que não se importa, porque a inconformidade é uma luta por demais solitária.