que vou fazer de novo
que não vou conseguir parar
e que mesmo que quisesse
não faria diferente...
de precisar cada vez mais
de me entregar sem pensar
e, mesmo podendo, jamais
nunca, nenhum dia da minha vida
hei de deixar te amar
Jhonny Putão devia ter uns 50. Os cabelos grisalhos, compridos, um óculos redondo. Ela era uma espécie de John Lennon vivo. Mas bêbado. Sempre bêbado. Tomava gin como se fosse água e cheirava a fumaça de cachimbo. Os dentes eram amarelados e os olhos, quando ele aparecia sem óculos, eram espremidos e vermelhos. Um legítimo beberrão de quinta contador de histórias.
Ela veio. Num vestido de veludo lilás, colado. A cara esburacada pela acne da adolescência, bafo de cerveja, batom meio vermelho, mas nos lábios escuros ficava roxo. Os peitos desciam quase até o umbigo. As auréolas eram maiores que fatias de mortadela. Tinha uma bunda imensa que com certeza não cabia em privada alguma. Reza a lenda que Dani Dinossauro cagava no tanque. Realmente monstruosa.
Ela disse isso, se ajoelhou aos pés dele, abriu o zíper da bermuda bege e enfiou aquele resto de pau na boca. Jhonny se assutou, deixou cair um pouco da gin na camiseta velha do Doors, mas logo se ajeitou na cadeira e relaxou nos imensos lábios de Dani.
Que tesão, baby!
Ela o olhou com a rola na boca. A cena era grotesca. Ele enfiou as mãos nos peitos gigantescos dela e ficou apertando os mamilos. Ela chupava e gemia. Sem jamais tirar a rola da boca. Levantou, subiu o vestido até onde terminavam os peitos (no meio da barriga) e sentou aquela xota escondida num monte de sebo no pau do Putão. Ele gemeu. E ela começou a pular.
Os dois gemiam sem parar e aumentavam o ritmo. Eu tava realmente acreditando que Jhonny faria Dani Dinossauro gozar como louca. Foi quando a cadeira do bar abriu as pernas. Os dois caíram no chão, mas o pau não saiu de dentro daquela imensidão de carne mijada.
No chão, a coisa foi mais voraz. Era violento. Fazia um barulho ensurdecedor, como se dois hipopótamos estivessem cantando Pavarotti e batendo a barriga um contra o outro sem parar. Eu vi Dani fechar os olhos e começar a esfregar a xota nele. Um atrito digno de arear panela. Só faltava sair faísca. Ela gemia mais alto e ele concentrava-se pra não esvair-se em porra antes da hora. Foi quando ela soltou...
Eu pensei que fosse um alien. Juro. A negra tremia, virava os olhos. Era um misto de grito de gol com convulsão. Alguma coisa espirrou na camisa de Jhonny. Ela LITERALMENTE gozava feito louca. E ele não resistiu e despejou porra naquela xota gordurosa. Terrível.
Ela deitou em cima dele, com aquele traseiro do tamanho de um conteiner olhando o balcão. Respiravam ofegantes. Pareciam suspensão de busão do centro. Medonho.
Meia hora depois, com a ajuda de muita gente, Dani Dinossauro saiu de cima de Jhonny Putão. Ele se levantou com dificuldade, pediu outra gin, arrumou outra cadeira e se reestabeleceu.
Ele riu, pigarreando novamente, entornou meio copo de gin e pegou o cachimbo. Olhou em volta, todos estarrecidos. Ele ajeitou o membro na bermuda. Jhonny Putão ainda reinava no bar.
É simples assim: a gente finge que esquece e não deixa de lembrar.
Às vezes eu paro pra pensar no que acontece a minha volta. Ou ao redor de todo mundo. É incrível mesmo a capacidade que o ser humano que vive em sociedade – eis o grande erro – tem de saber o cheiro que tem o rabo alheio e não ter a menor idéia do cheiro do próprio rabo. E sabe por quê? Porque é mais fácil enfiar o dedo no rabo alheio.
Eu nunca fiz questão de acreditar na sorte. E ratifiquei isso tudo lendo o velho safado. Segundo ele, a gente tem é talento pra se safar do azar, pois esse sim existe.
As coisas podem dar certo e podem dar errado. Não é o que anda acontecendo comigo. E eu posso até me dar ao luxo de dizer por aí que ando fazendo tudo direito! Tirando as noites de trago, os dias de cão eu ando levando na mais alta classe, na categoria, cheio de paciência e anti-ácido. Mas porque é que comigo não dá certo? Todo mundo, gente que, perante a sociedade, é muito PIOR que eu, consegue escapar e pular a corda quando ela passa embaixo dos pés e eu me enrosco todo nessa merda e caiu com o cu no asfalto? Cansa!
O Chico disse na música que Deus era gozador e adorava brincadeira. E eu ando achando que é fato! Chego a ponto de olhar pro céu e perguntar, indignado: agora você tá me zoando, né?
É dar um passo pra frente e as coisas todas andarem junto, ou seja, você parece estar sempre no mesmo lugar. Deve ser coisa mandada! É por essas e outras que não há jeito: sem trago a noite, sem força pra dia de cão de manhã. É fato!
Já perdi o fio da meada. Tinha um monte de coisa na minha cabeça, mas eu cheguei em casa, tomei um banho e parece que toda a inhaca urbana que me emputece durante o dia vai pro ralo, aí as idéias desaparecem. Me resta o trago. Vou ver qual é ali com o copo e amanhã, quando a cuca fervilhar, eu volto pra expor a bagunça que tá aqui dentro.
Ah, sim! Uma coisa andou! Nem parece verdade...
aquele dia saí da pensão para ir ao novo emprego. eu nunca tive muitas ambições, nunca quis ser rico, pensava simplesmente numa casa de dois quartos, quintal para fazer um churrasco de domingo, minha mulher, dois filhos e um cachorro. eu batalhava por isso. estudei, me formei, troquei de cidade e, agora, tinha o emprego que me pagaria o que eu julgava justo. eu estava feliz e com o coração em paz até entrar no escritório novo.
ela sentava na mesa do fundo, tinha longos cabelos dourados, olhos penetrantes e um sorriso simpático, espontâneo e bonito o suficiente pra enganar um babaca com o coração em paz. eu, por exemplo.
na segunda semana no escritório nós saímos. bebemos, conversamos e tudo acabou numa cama redonda, com um colchão velho forrado com courinho marrom num motel de quinta.
no dia seguinte mantivemos as aparências de sempre. não almoçamos juntos, mas saímos à noite. e essa rotina se repetiu excitantemente por três longos meses. era uma paixão fervorosa, quente, sincera, bonita. eu cheguei a pensar que frutificaria, mas ela tirou férias, não deu sinal de vida e quando voltou, me chamou pra conversar.
contou que estava noiva, que iria se casar e que queria manter o juízo, ter uma relação saudável e uma família feliz. sorte a dela. eu passei três dias sem dormir.
tentei manter o controle, mas sentia raiva dela. todos os sorrisos que ela me dava me irritavam. seus olhares me feriam, sua voz me ensurdecia e eu sequer conseguia responder o "bom dia" que ela me dava.
antes de surtar completamente, a chamei pra conversar.
"não me olhe mais", eu disse.
"eu tento evitar, mas não consigo."
"consegue. você evitou tantas outras coisas, me olhar é muito mais simples."
"eu te fiz muito mal, me sinto mal por isso..."
"sente sim... por isso saíamos todas às vezes sem culpa alguma..."
"não fala assim... se tivesse algo que eu pudesse fazer pra reparar meu erro eu..."
"tem algo sim", interrompi. "mesmo quarto, mesmo motel, hoje às onze."
"eu... ok, eu passo."
antes de me preparar psicologicamente para o encontro, comprei uma garrafa de vodca, energéticos, cigarros, dois CD's do Chico, incenso e aquele veneno pra rato. passei na floricultura, comprei rosas colombianas vermelhas e fui pro nosso quarto.
arrumei tudo como queria, acendi o incenso, me servi um copo grande com muita vodca e um pouco de energético, coloquei o CD do Chico e escrevi numa folha em branco:
"se há algo que pode te salvar, é a honestidade. se amas a outro não deverias vir. veio, traíste e pagarás para que eu a esqueça."
ela veio. falou, falou, falou e bebeu, bebeu, bebeu e trepou, trepou, trepou e dormiu.
eu acordei mais cedo e pedi o café da manhã: suco de laranja, torradas e salada de frutas - o que ela gostava. tomei um banho me troquei e antes de sair despejei o tal do veneno na jarra de suco. deixei as rosas com o cartão na recepção e a recomendação ao velho recepcionista que entregasse a ela quando ela passasse por lá. ele sorriu, disse que eu era romântico, eu disfarcei minha vontade de mandá-lo à merda, paguei a conta e saí.
parei na padaria do outro lado para tomar o meu café: uma lata de guaraná antártica, um pedaço de torta de frango, café preto e marlboro. duas longas horas mais tarde, a vi saindo.
os cabelos molhados, seios perfeitos soltos na blusa de seda vermelha, sardas espalhadas pelos ombros, aquele rabo escultural numa saia branca, os pés num salto alto, o buquê de rosas numa mão e o papel na outra.
senti o cheiro de desespero do outro lado da rua. paguei minha conta e a vi estendendo a mão pra dar sinal pra um táxi. atravessei a tempo de vê-la cair. as rosas na calçada, o papel amassado numa mão, a outra apertando a garganta. a olhei nos olhos. olhos arregalados, gritando algo que não saia de jeito nenhum. fechei os meus e quando abri, os dela já não brilhavam mais.
"não houve salvação", disseram no trabalho. os colegas se reuniram e foram ao velório, depois ao enterro. eu disse que ia, mas mudei de idéia e fui pro quarto do motel de sempre. pelas minhas contas, eles devem estar baixando o caixão agora.
um homem não pode amar duas mulheres ao mesmo tempo. ele pode amar uma e gostar da outra, querer ter por perto ou coisa assim. falo isso por mim. eu saia com três mulheres desde que me separei a última vez. gostava das três, mas cada uma de um jeito diferente... uma porque era mais gostosa, outra porque me acompanhava nos bares da vida a outra porque era linda e trepava como ninguém, enfim. cada uma com sua peculiaridade, cada uma com seu cheiro, seus modos, seu sexo, seu jeito de gostar de mim. e tudo corria as mil maravilhas, tudo ia muito bem até que um dia minha ex-mulher me ligou. eu senti na voz dela que o tempo que tínhamos dado um ao outro chegava ao fim e que realmente precisávamos muito um do outro agora. percebi que ela tinha vontade de reatar e de tomar novos rumos, traçar novos planos, olhar as coisas com outros olhos. não posso negar em momento algum que amei loucamente aquela mulher. e não posso negar que estava muito fácil ceder a todos esses encantos novamente e retomar um amor que eu jurava estar morto. ou pelo menos morrendo. e foi o que eu fiz. mas fiz do meu jeito: na canalhice.
saia com as quatro garotas, comia as quatro garotas, inventava quatro desculpas, quatro declarações, quatro apelidinhos carinhosos e quatro maneiras de trepar. revezava os dias da semana e reservava um tempo pra cada uma a cada fim de semana. nos outros, eu sempre tinha o que fazer. mas tudo na vida passa e essa febre de fornicação barata passou.
eu comecei a não ver mais graça em todas as meninas, descobri umas trapaças aqui, outras acolá, me senti traído (mesmo traindo todas ao mesmo tempo), me tornei um pouco mais amargo e fui riscando a minha lista. claro, dei prioridade a minha ex-mulher. ela era o que eu queria. pelo menos parecia ser.
tirei a que me traiu primeiro e resisti às investidas dela. a segunda, por ser meio fresca demais e imatura o suficiente pra não entender a minha situação - eu não sou egoísta, só costumo pensar primeiro em mim. a terceira... bem... a terceira eu não consegui riscar de lista. ela me fazia bem, de um jeito ou de outro. estava sempre ali, me queria o tempo todo com ela, me enchia com os problemas que ela criava e não existiam, me pedia solução, não dava um passo sem mim e isso me cativava. sempre gostei da idéia de ter alguém que precisasse muito de mim. mesmo sendo só pro meu prazer e meu deleite - só pra poder jogar na cara de alguém que esse alguém não viveria se eu não estivesse perto.
eu amava de fato minha ex-mulher, mas nutria algo por essa terceira. um carinho, um cuidado. talvez só o fato de precisar dela por mera vaidade, confesso. fiquei com as duas. e estava tudo bem até eu começar a sentir que só o fato de pensar na tarceira já me fazia um filho da puta ainda maior. pior que isso: eu comecei a me sentir errado. mas superei tudo isso num primeiro momento, insisti na idéia e continuei saindo. mas as coisas entraram no eixo do outro lado e eu comecei a fugir da garota sempre. ela percebeu, eu menti. disse um monte de baboseira pra que ela fosse cativada novamente e deu certo. e eu fugi mais. e ela sofreu um bocado e mesmo assim saiu comigo no meu aniversário, me encheu de presentes, me chupou, me fez gozar três vezes, disse que me amava e que queria viver comigo pra sempre. eu não disse nada. e acabou que sumi de novo.
esses dias a encontrei. precisava acabar com aquilo de algum jeito. disse o que tinha pra dizer, a deixei no ponto e ia saindo quando ela me chamou de volta. me disse, olhando nos meus olhos, com os olhos marejados, a boca meio trêmula, "eu me decepcionei muito com você". "você teve sua chance", eu disse, "talvez não tenha aproveitado tão bem quanto deveria" - egoísmo, talvez eu entenda mesmo disso. ela se calou como que engolindo qualquer "vai tomar no cu" que pudesse escapar. "minha maior frustração é não te ver com a blusa que eu te dei". eu silenciei, a beijei no rosto, ela subiu no lotação e seguiu. eu fui em frente, pensando, triste e meio perdido. até que caiu a ficha.
voltei correndo no mesmo ponto, peguei o lotação que vinha atrás, acompanhando a outra apavorado, com pressa, torcendo pra que desse tempo. a vi descer no ponto, dei sinal ainda olhando pra onde ela iria. corri o máximo que pude, me coloquei na frente dela. notei que ela chorava desamparadamente. eu não disse nada. abri a mochila, coloquei a blusa, fechei o zíper, a beijei na boca com todo o sentimento que ainda restava em mim, pedi desculpas por tudo e saí.
Insanidades e ninharias
Insanidades e ninharias